terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A PROPÓSITO DA REMUNERAÇÃO COMPENSATÓRIA... Por Francisco Moita Flores

Um vómito

"O subsídio de César não foi para os funcionários pobres das ilhas.

Foi para aqueles que mais ganham."

Carlos César, presidente do Governo Regional dos Açores, tornou-se o

ilustrativo exemplo de como a política, quando já se julga que não

pode descer mais baixo, ainda tem mais um degrau para descer no mundo

da amoralidade. Os subsídios aos funcionários atingidos pelos cortes

nos vencimentos, que segundo ele não ultrapassam três milhões de

euros, nem chegam a ser uma medida populista.

Atingem um núcleo restrito de técnicos superiores, chefes de divisão,

directores e subdirectores, nos quais se incluem naturalmente o

contingente dos seus mais leais serviçais políticos. Os ‘boys’ de

César. Não tem a ver com ultraperiferia nem com a atracção de novos

quadros, como alguém argumentou, pois não vai surgir desta decisão

cesarista um movimento migratório de quadros técnicos para os Açores.

Tem apenas a ver com ambição e perfil de quem nos governa. Tido como

um dos eventuais substitutos de Sócrates, o que daqui resulta é que

quer atingir Sócrates. Não pela criação de uma política nobre, mas à

cotovelada.

O subsídio de César não foi para os funcionários pobres das ilhas. Foi

para aqueles que mais ganham, e ao mesmo tempo um valente pontapé no

Governo central do seu Partido. Em nome dos Açores? Não. Em nome da

Autonomia? Não. Em nome dos interesses estratégicos de César. Um

general que não alimenta as tropas corre o risco de deserções.

A sua decisão não foi apenas uma afronta ao Governo da República. É um

escárnio sobre os funcionários que nas mesmas condições, em zonas mais

pobres do que os Açores, estão comprometidos com o apertar do cinto

orçamental. É o desprezo absoluto pela política nacional por troca com

os prémios de jogo que decidiu pagar às suas clientelas regionais. Diz

que este ano a massa resulta de umas obra num campo de futebol que não

se farão. E para o ano? E para o ano seguinte? É claro que acabarão

por pagar aqueles que viram no resto do país os seus salários

cortados. Não admira pois que esta mediocridade moral nem consiga

receber o apoio do seu Partido.

É levar demasiado longe o caciquismo. Aos limites do vómito. Porém,

regozija-se o Bloco de Esquerda, o símbolo maior do refilanço

pré-juvenil com e sem causas. E…. Manuel Alegre! É doloroso ver um

candidato a Presidente da República preso a esta imundície moral por

necessidade de votos.

Dirão alguns que é coisa menor comparando com os

muitos milhões do BPN e de outros imbróglios afins. Seria verdade se o

dinheiro fosse a medida de todas as coisas. Mas não é. A maior das

medidas é o sentido de Pátria, assumida com elevada responsabilidade e

rigor. E isto César não sabe o que é.


Francisco Moita Flores, professor universitário