Um vómito
"O subsídio de César não foi para os funcionários pobres das ilhas.
Foi para aqueles que mais ganham."
Carlos César, presidente do Governo Regional dos Açores, tornou-se o
ilustrativo exemplo de como a política, quando já se julga que não
pode descer mais baixo, ainda tem mais um degrau para descer no mundo
da amoralidade. Os subsídios aos funcionários atingidos pelos cortes
nos vencimentos, que segundo ele não ultrapassam três milhões de
euros, nem chegam a ser uma medida populista.
Atingem um núcleo restrito de técnicos superiores, chefes de divisão,
directores e subdirectores, nos quais se incluem naturalmente o
contingente dos seus mais leais serviçais políticos. Os ‘boys’ de
César. Não tem a ver com ultraperiferia nem com a atracção de novos
quadros, como alguém argumentou, pois não vai surgir desta decisão
cesarista um movimento migratório de quadros técnicos para os Açores.
Tem apenas a ver com ambição e perfil de quem nos governa. Tido como
um dos eventuais substitutos de Sócrates, o que daqui resulta é que
quer atingir Sócrates. Não pela criação de uma política nobre, mas à
cotovelada.
O subsídio de César não foi para os funcionários pobres das ilhas. Foi
para aqueles que mais ganham, e ao mesmo tempo um valente pontapé no
Governo central do seu Partido. Em nome dos Açores? Não. Em nome da
Autonomia? Não. Em nome dos interesses estratégicos de César. Um
general que não alimenta as tropas corre o risco de deserções.
A sua decisão não foi apenas uma afronta ao Governo da República. É um
escárnio sobre os funcionários que nas mesmas condições, em zonas mais
pobres do que os Açores, estão comprometidos com o apertar do cinto
orçamental. É o desprezo absoluto pela política nacional por troca com
os prémios de jogo que decidiu pagar às suas clientelas regionais. Diz
que este ano a massa resulta de umas obra num campo de futebol que não
se farão. E para o ano? E para o ano seguinte? É claro que acabarão
por pagar aqueles que viram no resto do país os seus salários
cortados. Não admira pois que esta mediocridade moral nem consiga
receber o apoio do seu Partido.
É levar demasiado longe o caciquismo. Aos limites do vómito. Porém,
regozija-se o Bloco de Esquerda, o símbolo maior do refilanço
pré-juvenil com e sem causas. E…. Manuel Alegre! É doloroso ver um
candidato a Presidente da República preso a esta imundície moral por
necessidade de votos.
Dirão alguns que é coisa menor comparando com os
muitos milhões do BPN e de outros imbróglios afins. Seria verdade se o
dinheiro fosse a medida de todas as coisas. Mas não é. A maior das
medidas é o sentido de Pátria, assumida com elevada responsabilidade e
rigor. E isto César não sabe o que é.
Francisco Moita Flores, professor universitário
Uma imagem crítica à sociedade e aspectos da vida açoreana e nacional. Temas diversos, ou simplesmente o que me vai na alma.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Nenhum dos dois era perfeito.
Conta-nos uma antiga parábola que, certo dia, um alfinete e uma agulha encontraram-se numa cesta de costuras.
Estando os dois desocupados, começaram a discutir, porque cada um se considerava melhor e mais importante do que o outro:
- "Afinal, qual é mesmo a sua utilidade?" disse o alfinete para a agulha. "E como pensa você vencer na vida se não tem cabeça?"
- "A sua crítica não tem a menor procedência" respondeu a agulha rispidamente. "Responda-me agora: de que te serve a cabeça se não tem olho? Não é mais importante poder ver?"
- "Ora, e de que lhe vale seu olho se há sempre um fio impedindo a sua visão?" retrucou o alfinete.
- "Pois fique sabendo que mesmo tendo um fio atravessando o meu olho, eu ainda posso fazer muito mais do que você."
Enquanto se ocupavam nessa discussão, uma senhora pegou a cesta de costura, desejando coser um pequeno rasgo no tapete.
Enfiou a agulha com linha bem resistente e se pôs a costurar o mais rápido que pôde.
De repente a linha emaranhou-se, formando uma laçada que dificultou o acabamento da costura.
Apressada, a mulher deu um puxão violento que rompeu o olho da agulha.
Tendo que ultimar aquele trabalho, ela amarrou a linha na cabeça do alfinete e conseguiu dar os pontos finais; mas na hora de arrematar, a cabeça do alfinete se desprendeu.
Impaciente com tudo, jogou a agulha e o alfinete na cesta e saiu resmungando.
Ambos estavam enganados:
O alfinete e a agulha!
Nenhum dos dois era insubstituível.
Nenhum dos dois era perfeito.
Nenhum dos dois era tão versátil que pudesse julgar-se com o direito de se considerar melhor do que o outro.
Estando os dois desocupados, começaram a discutir, porque cada um se considerava melhor e mais importante do que o outro:
- "Afinal, qual é mesmo a sua utilidade?" disse o alfinete para a agulha. "E como pensa você vencer na vida se não tem cabeça?"
- "A sua crítica não tem a menor procedência" respondeu a agulha rispidamente. "Responda-me agora: de que te serve a cabeça se não tem olho? Não é mais importante poder ver?"
- "Ora, e de que lhe vale seu olho se há sempre um fio impedindo a sua visão?" retrucou o alfinete.
- "Pois fique sabendo que mesmo tendo um fio atravessando o meu olho, eu ainda posso fazer muito mais do que você."
Enquanto se ocupavam nessa discussão, uma senhora pegou a cesta de costura, desejando coser um pequeno rasgo no tapete.
Enfiou a agulha com linha bem resistente e se pôs a costurar o mais rápido que pôde.
De repente a linha emaranhou-se, formando uma laçada que dificultou o acabamento da costura.
Apressada, a mulher deu um puxão violento que rompeu o olho da agulha.
Tendo que ultimar aquele trabalho, ela amarrou a linha na cabeça do alfinete e conseguiu dar os pontos finais; mas na hora de arrematar, a cabeça do alfinete se desprendeu.
Impaciente com tudo, jogou a agulha e o alfinete na cesta e saiu resmungando.
Ambos estavam enganados:
O alfinete e a agulha!
Nenhum dos dois era insubstituível.
Nenhum dos dois era perfeito.
Nenhum dos dois era tão versátil que pudesse julgar-se com o direito de se considerar melhor do que o outro.
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Dois Pesos e Duas Medidas

Todos dizemos "dois pesos e duas medidas", mas o termo tem a sua origem com Sócrates, um dos maiores filósofos gregos e o correcto é "um peso, duas medidas". Diariamente deparo-me com essas situações. As pessoas que trabalham não merecem nada a não ser trabalhar e o grupo "panelinha", consegue benefícios mil. As pessoas sérias, competentes que cumprem suas obrigações com eficiência, que não costumam faltar ao trabalho, excepto numa situação de doença grave ou por que aconteceu algo muito problemático o que os leva, dentro da sua honestidade tirar uma licença médica, o que é legal, e assim justificar a sua ausência. Outras pessoas que vivem do "lambe-lambe", bajulações ou outros tipos de falcatruas conseguem com o apoio da chefia imediata, viajar, ir à praia ou fazer "cursos" dentro do seu horário de expediente fazer várias coisas com o apoio total da administração, que ainda os elogia, tornando-os exímios funcionários e ainda indicando esses mesmos seres para ocupar cargos comissionados. Esses factos ocorrem várias vezes, onde o não fazer é fundamentalmente importante para que se consiga ascensão. Para mim pessoas desse tipo não merecem o meu respeito. Conseguir coisas às custas de malandragem, faz com que esses seres viventes se tornem "pobres" demais perante os meus olhos. E tenho dito!
O observador
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
Abaixo os organismos de cúpula, vivam os orgasmos de cópula
por daniel oliveira
Um episódio está a aquecer o Parlamento. Nada tem a ver com os deputados. A semana passada um colaborador do grupo parlamentar do PSD foi apanhado em flagrante delito, às sete da manhã, em pleno acto com uma amiga que não trabalha na Assembleia. A coisa pode parecer apenas interessante contada assim. Mas é muito mais do que isso. O acto aconteceu na sala do plenário. Infelizmente, a interrupção não terá permitido ao arrojado casal levar a fantasia até ao fim. Há sempre um empata.
Antes que a coisa saia na imprensa e comecem as condenações morais, quero deixar clara a minha admiração pelos pecadores. Porque respeito quem faz tudo para cumprir uma fantasia. Porque deram um contributo para a dessacralização do poder, aproximando assim aquele órgão de soberania das verdadeiras preocupações dos cidadãos. E porque, por uma vez, aconteceu qualquer coisa realmente interessante naquela sala (infelizmente não consegui saber qual foi a bancada escolhida). Só lamento que, como de costume, quando realmente alguma coisa de construtiva começa ali a ser feita, seja deixada a meio. O meu abraço aos dois. Próxima aventura: Palácio de Belém?
Parabéns ao intrépido casal porque:
a) Por uma vez que seja, a AR foi verdadeira e matematicamente paritária;
b) Demonstrou cabalmente que neste País a política é fodida. E que de deputado a de putedo pode ir, literalmente, um pintelho, pese embora não ter sido esse aparentemente o elenco desta (des)feita;
c) Às sete da matina já exibiam um ritmo e um grau de actividade que os mais dos deputados habitualmente nem às sete da tarde atingem;
d) Demonstraram que poder é bom enquanto dura, mas há que saber sair de cima quando o tempo de outrem sobrevém ao nosso;
e) Depois de lhes reprovarem o acto na generalidade, tiveram a decência e o bom-senso de passar à especialidade em sede mais recatada;
f) Forneceram o exemplo acabado de como, em Democracia, quaisquer coitados podem aceder sem restrições ao órgão máximo da representação popular (Coito dos Santos novamente na Educação, já!);
g) Demonstraram ainda, para gáudio de uns e vexame de outros, que naquela vetusta sala continua a haver quem use mudar de posição conforme as conveniências do momento.
Tenho dito.
Um episódio está a aquecer o Parlamento. Nada tem a ver com os deputados. A semana passada um colaborador do grupo parlamentar do PSD foi apanhado em flagrante delito, às sete da manhã, em pleno acto com uma amiga que não trabalha na Assembleia. A coisa pode parecer apenas interessante contada assim. Mas é muito mais do que isso. O acto aconteceu na sala do plenário. Infelizmente, a interrupção não terá permitido ao arrojado casal levar a fantasia até ao fim. Há sempre um empata.
Antes que a coisa saia na imprensa e comecem as condenações morais, quero deixar clara a minha admiração pelos pecadores. Porque respeito quem faz tudo para cumprir uma fantasia. Porque deram um contributo para a dessacralização do poder, aproximando assim aquele órgão de soberania das verdadeiras preocupações dos cidadãos. E porque, por uma vez, aconteceu qualquer coisa realmente interessante naquela sala (infelizmente não consegui saber qual foi a bancada escolhida). Só lamento que, como de costume, quando realmente alguma coisa de construtiva começa ali a ser feita, seja deixada a meio. O meu abraço aos dois. Próxima aventura: Palácio de Belém?
Parabéns ao intrépido casal porque:
a) Por uma vez que seja, a AR foi verdadeira e matematicamente paritária;
b) Demonstrou cabalmente que neste País a política é fodida. E que de deputado a de putedo pode ir, literalmente, um pintelho, pese embora não ter sido esse aparentemente o elenco desta (des)feita;
c) Às sete da matina já exibiam um ritmo e um grau de actividade que os mais dos deputados habitualmente nem às sete da tarde atingem;
d) Demonstraram que poder é bom enquanto dura, mas há que saber sair de cima quando o tempo de outrem sobrevém ao nosso;
e) Depois de lhes reprovarem o acto na generalidade, tiveram a decência e o bom-senso de passar à especialidade em sede mais recatada;
f) Forneceram o exemplo acabado de como, em Democracia, quaisquer coitados podem aceder sem restrições ao órgão máximo da representação popular (Coito dos Santos novamente na Educação, já!);
g) Demonstraram ainda, para gáudio de uns e vexame de outros, que naquela vetusta sala continua a haver quem use mudar de posição conforme as conveniências do momento.
Tenho dito.
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terça-feira, 19 de outubro de 2010
***Gosto De Ti***
Gosto De Ti E Do Teu SORRISO
Gosto De Ti E De Te Ouvir
Gosto De Ti E De Falar Contigo
Gosto De Ti E De Te Ouvir Rir
Gosto De Ti E De Te Sentir Feliz
Gosto De Ti E Das Coisas Que Fazemos
Gosto De Ti E Das Coisas Que Tu Fazes
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Rir
Gosto De Ti E De Quando Me Dás Atenção
Gosto De Ti E De Quando Me Dás Importância
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Que Faço Falta
Gosto De Ti E De Quando Ficamos Horas ao Tlm
Gosto De Ti E De Quando Me Das Carinho
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Sentir Melhor
Gosto De Ti E De Quando Tornas As Coisas Mais Simples Para Mim
Gosto De Ti E De Quando Ouves Os Meus Problemas
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Um Lado Positivo
Gosto De Ti E De Quando Me Ensinas A Lutar
Gosto De Ti E De Quando Me Ensinas a Não Desistir
Gosto De Ti E De Quando Me Das Força
Gosto De Ti E De Quando Me Animas
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Sonhar
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Acreditar
Gosto De Ti E De Quando Me Ajudas A Sair Do Escuro
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Que estou Errado
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Que Errei Sem Me Deitares Abaixo
Gosto De Ti E De Quando Me Chamas á Razão
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Que Sou Especial
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Ver O Lado Certo
Gosto De Ti E De Quando Estas Ao Meu Lado
Gosto De Ti E De Quando Sei Que Posso Contar Sempre Contigo
Gosto De Ti E De Quando Tas Sempre Ai Para mim
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Bem
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Parar De Fazer Asneiras
Gosto De Ti E Dos Nossos Momentos
Gosto De Ti E Dos Nossos Sorrisos
Gosto De Ti E Da Maneira Como Ultrapassas Os Obstáculos
Gosto De Ti E...Gosto De Ti!
Gosto De Ti E De Te Ouvir
Gosto De Ti E De Falar Contigo
Gosto De Ti E De Te Ouvir Rir
Gosto De Ti E De Te Sentir Feliz
Gosto De Ti E Das Coisas Que Fazemos
Gosto De Ti E Das Coisas Que Tu Fazes
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Rir
Gosto De Ti E De Quando Me Dás Atenção
Gosto De Ti E De Quando Me Dás Importância
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Que Faço Falta
Gosto De Ti E De Quando Ficamos Horas ao Tlm
Gosto De Ti E De Quando Me Das Carinho
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Sentir Melhor
Gosto De Ti E De Quando Tornas As Coisas Mais Simples Para Mim
Gosto De Ti E De Quando Ouves Os Meus Problemas
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Um Lado Positivo
Gosto De Ti E De Quando Me Ensinas A Lutar
Gosto De Ti E De Quando Me Ensinas a Não Desistir
Gosto De Ti E De Quando Me Das Força
Gosto De Ti E De Quando Me Animas
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Sonhar
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Acreditar
Gosto De Ti E De Quando Me Ajudas A Sair Do Escuro
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Que estou Errado
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Que Errei Sem Me Deitares Abaixo
Gosto De Ti E De Quando Me Chamas á Razão
Gosto De Ti E De Quando Me Mostras Que Sou Especial
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Ver O Lado Certo
Gosto De Ti E De Quando Estas Ao Meu Lado
Gosto De Ti E De Quando Sei Que Posso Contar Sempre Contigo
Gosto De Ti E De Quando Tas Sempre Ai Para mim
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Bem
Gosto De Ti E De Quando Me Fazes Parar De Fazer Asneiras
Gosto De Ti E Dos Nossos Momentos
Gosto De Ti E Dos Nossos Sorrisos
Gosto De Ti E Da Maneira Como Ultrapassas Os Obstáculos
Gosto De Ti E...Gosto De Ti!
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Poema de Amor: Para Ti
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Mensagem aos companheiros da JSD

Caros companheiros,
depois deste fim-de-semana fiquei decepcionado com a politica e com pessoas as quais tinha grande admiração partidária pela posição menos correcta que tomaram. Foi com desagrado que eu e com certeza todos os meus companheiros vimos a direcção politica do nosso PSD compactuar com um espectáculo que de sincero não teve nada e que nada mais fez que passar do que uma imagem debilitada da nossa juventude, tudo porque quiseram obdecer a um programa previsto. Pena que estes não se aperceberam que os seus discursos por mais bem preparados que fossem ficaram descridibilizados perante tal situação. Mais tarde em casa num almoço familiar também os meus ficaram incrédulos com essa tomada de posse e não com um adiamento depois que todas as situações menos claras ficassem resolvidas. Os discursos poderiam ter sido reformulados por parte da nossa presidente e poderia ter havido da mesma maneira a oportunidade para a tão desejada rentré politica mas nunca proclamando um lider corrupto.
Companheiros mas não vamos desistir, não vamos abandonar a nossa cor politica, não vamos abandonar os ideiais do nosso partido e não vamos dar ouvidos a meras personalidades que formando um núcleo duro pensam que podem passar por cima de tudo e todos.
É cada vez mais difícil, encontrar forças humanas de mobilização como o fundador do PSD, pessoas capazes de pensar no futuro de forma tão inovadora quanto contestada. Numa época em que o descrédito da classe politica é grande, eu diria até que só alguém com o carácter de Sá Carneiro teria a força capaz de inverter este marasmo em que vive a politica e os políticos em Portugal. Não sei se sozinho o fosse conseguir. Mas estou certo de que os jovens iriam encarar toda esta problemática com outros olhos.
Li em algum sitio o seguinte: "Diz-se mesmo que, em matéria de maus comportamentos políticos, as estruturas jovens dos partidos são a melhor "escola do crime". Na verdade, os infantes limitam-se a fazer funcionar as estruturas partidárias em que se inserem como uma espécie de antecâmara do poder, copiando em tudo (sobretudo nos maus exemplos) o modus operandi dos partidos-mãe."
Não vamos fazer com que isto aconteça.
Desde sempre os partidos tiveram vozes criticas, a chamada voz da consciência, acredito que a nós foi deliberada essa função e que por isso não vamos desistir nem renunciar à nossa cor politica, para eles seria um regojizo tal coisa.
A nossa equipa demonstra união e acredito que juntos ainda nos vamos encontrar em grandes lutas politicas.
Com os melhores cumpts.
André de Medeiros Vicente
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
SÍSIFO
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga, Diário XIII
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga, Diário XIII
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Pirilampos

Tu não acreditarias nos teus olhos
Se dez milhões de pirilampos
Iluminassem o mundo
Enquanto eu adormecia
Porque eles enchem o ar livre
E deixam lágrimas em toda parte
Tu vais pensar que eu sou rude
Mas eu apenas ficaria de pé e observaria
Eu gostava de me fazer acreditar
Que o planeta Terra gira lentamente
É difícil dizer que eu prefiro ficar acordado quando eu estou dormir
Porque tudo nunca é como parece ser
Porque eu aceitava um milhão de abraços
De dez milhões de pirilampos
Enquanto eles tentassem ensinar me dançar
Um fox trot que não me sai da cabeça
Outros dançam sock hop debaixo da minha cama
Uma bola de discoteca suspensa apenas por um fio
Eu gostaria de me fazer acreditar
Que o planeta Terra gira lentamente
É difícil dizer que eu prefiro ficar acordado quando estou a dormir
Porque tudo nunca é como parece ser
(quando eu adormeço)
Deixo a minha porta entre aberta
(Por favor leva me para longe daqui)
Porque eu estou com insónias
(Por favor leva me para longe daqui)
Porque eu estou cansado de contar carneiros
(Por favor leva me para longe daqui)
Quando estou muito cansado para adormecer
Dez milhões de pirilampos
Estou estranho porque eu odeio despedidas
Eu fiquei com os olhos húmidos
Quando eles disseram adeus
(Adeus)
Mas eu vou saber onde existem vários
Se os meus sonhos se tornarem realmente bizarros
Porque eu iria salvar alguns
E os guardaria em um pote
Eu gostava de me fazer acreditar
Que o planeta Terra gira lentamente
É difícil dizer que eu prefiro ficar acordado quando estou a dormir
Porque tudo nunca é como parece ser
(quando eu adormeço)
Eu gostava de me fazer acreditar
Que o planeta Terra gira lentamente
É difícil dizer que eu prefiro ficar acordado quando estou a dormir
Porque tudo nunca é como parece ser
(Quando eu adormeço)
Eu gostava de me fazer acreditar
Que o planeta Terra gira lentamente
É difícil dizer que eu prefiro ficar acordado quando estou a dormir
Porque parece que os meus sonhos estão explodindo
Tradução de André Vicente do Original Fireflies de OWL City, composição de Adam Young
Fireflies
You would not believe your eyes
If ten-million fireflies
Lit up the world
As I fell asleep
Cause they fill the open air
And leave teardrops everywhere
Youd think me rude
But I would just stand and stare
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Cause everything is never as it seems
Cause I'd get a thousand hugs
From ten-thousand lightning bugs
As they try to teach me how to dance
A fox trot above my head
A sock hop beneath my bed
A disco ball is just hanging by a thread
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Cause everything is never as it seems
(When I fall asleep)
Leave my door open just a crack
(Please take me away from here)
Cause I feel like such an insomniac
(Please take me away from here)
Why do I tire of counting sheep
(Please take me away from here)
When I'm far too tired to fall asleep
To ten-million fireflies
I'm weird cause I hate goodbyes
I got misty eyes
As they said farewell
(Farewell)
But I'll know where several are
If my dreams get real bizarre
Cause I'd save a few
And I'd keep them in a jar
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Cause everything is never as it seems
(When I fall asleep)
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Cause everything is never as it seems
(When I fall asleep)
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Because my dreams are bursting at the seems
If ten-million fireflies
Lit up the world
As I fell asleep
Cause they fill the open air
And leave teardrops everywhere
Youd think me rude
But I would just stand and stare
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Cause everything is never as it seems
Cause I'd get a thousand hugs
From ten-thousand lightning bugs
As they try to teach me how to dance
A fox trot above my head
A sock hop beneath my bed
A disco ball is just hanging by a thread
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Cause everything is never as it seems
(When I fall asleep)
Leave my door open just a crack
(Please take me away from here)
Cause I feel like such an insomniac
(Please take me away from here)
Why do I tire of counting sheep
(Please take me away from here)
When I'm far too tired to fall asleep
To ten-million fireflies
I'm weird cause I hate goodbyes
I got misty eyes
As they said farewell
(Farewell)
But I'll know where several are
If my dreams get real bizarre
Cause I'd save a few
And I'd keep them in a jar
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Cause everything is never as it seems
(When I fall asleep)
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Cause everything is never as it seems
(When I fall asleep)
I'd like to make myself believe
That planet earth turns slowly
It's hard to say that I'd rather stay awake when I'm asleep
Because my dreams are bursting at the seems
quarta-feira, 14 de julho de 2010
E por falar em saudade onde anda você
Onde andam seus olhos que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou louco de tanto prazer
E por falar em beleza onde anda a canção
Que se ouvia na noite dos bares de então
Onde a gente ficava,onde a gente se amava
Em total solidão
Hoje eu saio da noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares,que apesar dos pesares
Me trazem você
E por falar em paixão, em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares, na noite, nos bares
Onde anda você.
Vinícius de Moraes
Onde andam seus olhos que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou louco de tanto prazer
E por falar em beleza onde anda a canção
Que se ouvia na noite dos bares de então
Onde a gente ficava,onde a gente se amava
Em total solidão
Hoje eu saio da noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares,que apesar dos pesares
Me trazem você
E por falar em paixão, em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares, na noite, nos bares
Onde anda você.
Vinícius de Moraes
A UM AUSENTE
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
Carlos Drummond de Andrade
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Os Amigos
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.
Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.
Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"
Ser Diferente
A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.
Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'
Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'
segunda-feira, 28 de junho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
A Coragem de Seres Só
Uma arma de triunfo te dei, sobre todas as outras: a coragem de seres só; deixou de te afectar como argumento ou força esmagadora a alheia opinião, as ligeiras correntes e os redemoinhos do mar; rocha pequena, mas segura, sobre ti se hão-de erguer, para que vençam a noite, as luzes salvadoras; não te prendem os louvores dos que te querem aliado, nem as ameaças dos contrários; traçaste a tua rota e hás-de segui-la até ao fim, sem que te desviem as variadas pressões. Só e constante, mesmo em face do tempo; os anos que rolam tu os consideras elemento de experiência; para os homens futuros episódios sem valor; se eles te abaterem, só terão abatido o que há de menos valioso; e contribuirão para que melhor se afirme o que puseste como lição da tua vida; a muitos absorve o actual; mas a ti, que tens como tua grande linha de cultura, e porventura tua alma, a posse das largas perspectivas, a hora começando te vê firme e firme te abandona. Nenhuma estóica rigidez neste teu porte; antes a compassada lentidão, a facilidade maleável de bom ginasta; não é por amor da Humanidade que hás-de perder as mais fundas qualidades de homem. Em tal espelho me revejo, eu que tomei tua alma incerta e a guiei; e contemplo como doce oferenda, como a mais bela visão que me poderias conceder, a clara manhã que já de ti desponta e lentamente progredindo há-de acabar por embalar o universo nos seus braços de luz.
Agostinho da Silva, in 'Considerações'
Agostinho da Silva, in 'Considerações'
Leia, Ouça, Veja, mas sobretudo, Pense
Se grandes invenções ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, também se põe como fora de dúvida que mais rapidamente se avançou quando foi possível fixar inteligência em escrita, quando o saber se pôde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. A livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milhões de páginas de discorrer ou emoção humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Milhões de homens, porém, no mundo actual estão incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam métodos e meios do que incitamento que os levante acima do seu tão difícil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irmãos mais dependam de si próprios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salvações. Mais se comunica falando do que de qualquer outra forma; o que nos dizem muitas vezes nos parece de nenhuma importância, mas talvez tenha havido uma falha na atitude de escutar do que no conteúdo do que se disse; porventura a palavra-chave estava aí, mas estávamos distraídos, ou ansiosos por nós próprios falarmos; e no vento fugiu, a outros ouvidos ou a nenhuns. Ouça.
No tempo em que a antropologia ainda julgava que o homem descendia do macaco notou-se, para os distinguir, que um, mesmo no estádio mais primitivo, desenhava; o outro, mesmo que antropóide superior, nem olhava o desenho. Imagem nos veio acompanhando pela História fora, desde as pinturas ou gravuras rupestres, cujo verdadeiro significado ainda está por encontrar, até cinema ou televisão, sobre cujo significado igualmente muitas vezes nos podemos interrogar e que se tem de arrancar o mais depressa possível ao domínio do lucro, da publicidade ou das propagandas ideológicas para que possam cumprir, como nas formas mais antigas, a sua missão de iluminar, inspirar e consagrar o mundo. Imagem o cerca. Veja.
Mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. Nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, excepto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, excepto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. A tudo pese. Pense.
Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'
Milhões de homens, porém, no mundo actual estão incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam métodos e meios do que incitamento que os levante acima do seu tão difícil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irmãos mais dependam de si próprios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salvações. Mais se comunica falando do que de qualquer outra forma; o que nos dizem muitas vezes nos parece de nenhuma importância, mas talvez tenha havido uma falha na atitude de escutar do que no conteúdo do que se disse; porventura a palavra-chave estava aí, mas estávamos distraídos, ou ansiosos por nós próprios falarmos; e no vento fugiu, a outros ouvidos ou a nenhuns. Ouça.
No tempo em que a antropologia ainda julgava que o homem descendia do macaco notou-se, para os distinguir, que um, mesmo no estádio mais primitivo, desenhava; o outro, mesmo que antropóide superior, nem olhava o desenho. Imagem nos veio acompanhando pela História fora, desde as pinturas ou gravuras rupestres, cujo verdadeiro significado ainda está por encontrar, até cinema ou televisão, sobre cujo significado igualmente muitas vezes nos podemos interrogar e que se tem de arrancar o mais depressa possível ao domínio do lucro, da publicidade ou das propagandas ideológicas para que possam cumprir, como nas formas mais antigas, a sua missão de iluminar, inspirar e consagrar o mundo. Imagem o cerca. Veja.
Mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. Nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, excepto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, excepto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. A tudo pese. Pense.
Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'
quarta-feira, 14 de abril de 2010
NãO DESISTAS DE MIM
A porta fechou-se contigo,
Levaste na noite o meu chão,
E agora neste quarto vazio
Não sei que outras sombras virão.
E alguém ao longe me diz:
Há um perfume que ficou na escada,
E na TV o teu canal está aberto,
Desenhos de corpos na cama fechada,
São um mapa de um passado deserto.
Eu sei que houve um tempo
Em que tu e eu
Fomos dois pássaros loucos,
Voámos pelas ruas
Que fizemos céu,
Somos a pele um do outro.
Não desistas de mim,
Não te percas agora,
Não desistas de mim
A noite ainda demora.
Ainda sei de cor o teu ventre
E o vestido rasgado de encanto,
A luz da manhã,
O teu corpo por dentro,
E a pele na pele de quem se quer tanto.
Não tenho mais segredos,
Escondi-me nos teus dedos,
Somos metades iguais.
Mas hoje,
Só hoje,
Leva-me para onde vais
Que eu quero é dizer-te:
Não desistas de mim,
Não te percas agora,
Não desistas de mim
A noite ainda demora.
P. Abrunhosa, Longe
Levaste na noite o meu chão,
E agora neste quarto vazio
Não sei que outras sombras virão.
E alguém ao longe me diz:
Há um perfume que ficou na escada,
E na TV o teu canal está aberto,
Desenhos de corpos na cama fechada,
São um mapa de um passado deserto.
Eu sei que houve um tempo
Em que tu e eu
Fomos dois pássaros loucos,
Voámos pelas ruas
Que fizemos céu,
Somos a pele um do outro.
Não desistas de mim,
Não te percas agora,
Não desistas de mim
A noite ainda demora.
Ainda sei de cor o teu ventre
E o vestido rasgado de encanto,
A luz da manhã,
O teu corpo por dentro,
E a pele na pele de quem se quer tanto.
Não tenho mais segredos,
Escondi-me nos teus dedos,
Somos metades iguais.
Mas hoje,
Só hoje,
Leva-me para onde vais
Que eu quero é dizer-te:
Não desistas de mim,
Não te percas agora,
Não desistas de mim
A noite ainda demora.
P. Abrunhosa, Longe
Dá-me o tempo

Deita-te em mim,
Descobre onde estás,
Escuta o silêncio,
Que o meu corpo te traz.
Não me deixes partir,
Não me deixes voar,
Como um pássaro louco
Como a espuma do mar.
Sente a força da noite
Como facas no peito,
Como estrelas caídas
Que te cobrem o leito.
Tenho tantos segredos
Que te quero contar
E uma noite não chega,
Diz que podes ficar.
Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti, morrer por nós.´
Enfim nós os dois,
Os teus gestos nos meus,
Perdidos no quarto
Sem dizermos adeus.
Adiamos a noite,
Balançamos parados,
Pela última vez
Os nossos corpos colados.
Sente a força que temos
Quando estamos assim,
Um segundo é o mundo
Que nos separa do fim.
Porque tens de partir
Quando há tanto a dizer?
Eu não sei começar,
Não te quero perder.
(Eu gosto das formas que tomas,
Como o toque do cristal,
E dos vidros, dos poemas,
Da febre do metal)
P.Abrunhosa, Longe
Beijo
Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar e vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.
Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar e vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.
Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Doces Despojos de meu Bem Passado
Amor, co'a esperança já perdida
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que mais queres de mim, pois destruída
Me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de render-me, que não sei
Tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui vida, alma e esperança,
Doces despojos de meu bem passado,
Enquanto o quis aquela que eu adoro.
Nelas podes tomar de mim vingança;
E se te queres ainda mais vingado,
Contenta-te co'as lágrimas que choro.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que mais queres de mim, pois destruída
Me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de render-me, que não sei
Tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui vida, alma e esperança,
Doces despojos de meu bem passado,
Enquanto o quis aquela que eu adoro.
Nelas podes tomar de mim vingança;
E se te queres ainda mais vingado,
Contenta-te co'as lágrimas que choro.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'
O Medo De Nós Próprios
Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expessão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.
Oscar Wilde, in 'O Retrato de Dorian Gray'
Oscar Wilde, in 'O Retrato de Dorian Gray'
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Noticias em 2ª Mão
Ontem mais uma estreia na SIC generalista, "Noticias em 2ª mão", pelo que vi e á primeira vista o programa está bem conseguido, mas sou suspeito porque sou fã de Marco Horácio, já de Eduardo Madeira não tanto, porque me irrita por vezes o modo como este se tenta impôr a quem faz dupla com ele. As personagens são hilariantes, vamos a ver se este dura mais que o anterior "Formigueiro", quem nem aqueceu o lugar na estação. A SIC tem de se consciencializar que um programa antes de criar audiências tem de fidelizar o público e para isso é preciso o tempo.
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Noticias em 2ª Mão
Sinais de Fogo
Miguel Sousa Tavares voltou à antena das generalistas com um programa em nome próprio que, a julgar pela primeira emissão, combina o comentário e a entrevista, num formato um pouco incomum entre nós mas que tem aí uma das suas grandes forças, sobretudo quando sabemos que o homem tem as suas opiniões e, como diz o povo, não manda dizer por ninguém.
Não fazendo a coisa por menos, José Sócrates foi o primeiro convidado de Sinais de Fogo e foi muito bom ver que, finalmente, tivemos uma entrevista ao primeiro-ministro que insistiu nas perguntas difíceis, no estilo directo mas leal a que o jurista, jornalista e escritor nos habituou, e que, aqui entre nós, anda a fazer bastante falta.
Não fazendo a coisa por menos, José Sócrates foi o primeiro convidado de Sinais de Fogo e foi muito bom ver que, finalmente, tivemos uma entrevista ao primeiro-ministro que insistiu nas perguntas difíceis, no estilo directo mas leal a que o jurista, jornalista e escritor nos habituou, e que, aqui entre nós, anda a fazer bastante falta.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Morte ao erro, amor ao que erra!
(Santo Agostinho)
O maior erro que um homem pode cometer é viver com medo de cometer um erro.
(Hebbard)
É errado pensar que a vida é um jogo e que, se algo correr não exactamente de acordo com as nossas expectativas, podemos jogá-lo de novo desde o início, com novas oportunidades de êxito. Seria uma tolice considerar que temos direito a um caminho de triunfos, sem sofrimentos nem desilusões, sem coragem nem heroísmo. Porque isso não sucede a ninguém e não é deste mundo. Aqui é preciso escolher e, depois, seguir em frente até ao fim. Por vezes com os ombros pesados de cansaço, de dor, de desilusão, de fracasso...
(Paulo Geraldo)
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Porque ele está ali

Porque ele está ali
Algumas vezes sabemos dentro de nós que devemos fazer qualquer coisa semelhante a plantar uma árvore, mesmo sabendo que nunca comeremos dos seus frutos nem descansaremos à sua sombra. Ou descobrimos que devemos aplicar-nos não tanto ao nosso pequeno problema, mas a reconstruir as ruínas imensas que nos rodeiam. E nunca como então somos tão grandes. E nunca como então estamos tão perto de nós mesmos.
Quem compreendeu o que é a verdade amou-a. Procurou e escavou. Desejou-a para si e para os outros, porque não há outra luz. Depois sofreu por ela, porque em toda a volta a mentira é poderosa. E continuou, sem se calar, com esse amor e a sua dor.
Quem vive para a família é habitado por ela e torna-se maior e faz o que nunca faria se vivesse para si mesmo.
Aquele que escutou os gritos silenciosos das crianças assassinadas antes de verem a luz – e as dores das mães enganadas que sofrem sem remédio – leva consigo o maior peso do mundo. Aparentemente pode pouco contra aqueles que se instalaram nos lugares onde se fazem as leis e se manobram televisões e jornais. Mas é um gigante todo aceso. Queima. E são os seus braços que sustentam este mundo doente.
E há o que quis ser médico não para garantir uma vida cómoda, mas para devolver ao mundo sorrisos que se tinham perdido. E o que sofre em si toda a fome de África. E o que se enamorou da justiça. E aquele que cuida de crianças incuráveis.
Uma vez perguntaram a um alpinista por que desejava escalar o alto pico nevado. Respondeu: “Porque ele está ali”. Queria com isso dizer a naturalidade do encontro do homem com o seu sonho, com a sua tarefa, consigo mesmo.
É triste viver sem grandeza. É como estar longe de nós mesmos. É ver apenas as sombras do mundo e da vida. É, de algum modo, não viver…
As coisas grandes são aquelas que o amor nos leva a fazer, e muitas vezes realizam-se por meio de pequenos gestos. Fazem-se pisando os nossos apetites e gostos, abandonando o cómodo estojo no qual temos tendência a encerrar a nossa existência.
Um dia sabemos que temos de partir. Que temos de fazer da vida uma outra coisa. Simplesmente isto. E vamos…
Nunca mais a paz de sermos inúteis; nunca mais os prazeres que não saciam, nunca mais a ânsia de segurança que nos vai roendo a juventude e a alegria.
É difícil subir o monte altíssimo. É preciso trocar tudo pelo instante mágico de chegar ao cume. Ali tudo é radicalmente verdadeiro: não é possível fingir que se vai a caminho. Deixam-se as forças na íngreme escalada, rasga-se a pele nos rochedos, abandona-se o aconchego do calor do corpo ao vento e à neve e ao gelo. Caímos e apetece-nos ficar por ali. Por vezes não sabemos se conseguimos dar mais um passo.
Mas é tão belo! Só ali se respira verdadeiramente. Só ali se vêem todas as coisas com o seu verdadeiro relevo e com as suas cores verdadeiras. Só ali um homem se sente realmente rico – ele que deixou tudo lá em baixo.
Os amigos que se fazem na montanha duram para sempre: nasceram da magra ração repartida debaixo das estrelas, de se apoiarem uns aos outros quando o que estava em jogo era a vida ou a morte, de cantarem juntos, das longas confidências testemunhadas apenas pelo vento.
Na montanha os amigos não são descartáveis companheiros de divertimento: precisam mesmo uns dos outros, fazem parte uns dos outros, uns são os outros.
Os que ficaram lá em baixo chamam-nos loucos. Encolhemos os ombros: esses queridos estão vivos, mas ainda estão mortos. Uma pessoa não vive quando vive apenas para si mesma. Não se vive sem sal, sem risco, sem aventura. Estão a precisar de uma inundação de alegria.
E tu? Eu quereria que partisses. Não necessariamente de um lugar para outro, mas para fora de ti. Para onde precisam de ti. Para te encontrares.
E, se às vezes te falo de paciência, digo-te agora que te apresses. Tenho pressa de te conhecer. Se também eu for corajoso, havemos de nos encontrar e saberei o teu nome. Trocaremos um abraço forte e saberemos que era necessário que nos encontrássemos.
Paulo Geraldo
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Antes que Seja Tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
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