
23 Março 2011 [Opinião]
A Euroscut é um mistério.
Não se lhe conhece rosto nem idioma.
Sempre que alguma coisa corre mal, lava as mãos do problema ou esconde-se num estranho silêncio.
Como muito bem disse José Contente, há muito que a empresa deveria ter esclarecido os cidadãos sobre o que se passou com a queda dos pilares em Água d’Alto.
A empresa não só não ligou à chamada de atenção do governante, como até cancelou uma conferência de Imprensa sem dar mais explicações.
É mais uma arrogância desta empresa que se instalou em S. Miguel como se tornasse, num repente, concessionária de toda a ilha.
Razão tem Duarte Freitas quando lembrou que “a empresa espanhola não comprou os Açores, foram os Açores que compraram um serviço à empresa”.
Um serviço que custará à região, no mínimo, mais de 350 milhões de euros por um período de 30 anos, a contar do primeiro dia do próximo ano.
Já no ano passado a Euroscut deu mostras de algum desdém quando José Contente solicitou que a empresa antecipasse as obras de intervenção em Água d’Alto, junto aos taludes que provocaram derrocadas perto da praia. A empresa respondeu, do alto da sua sobranceria: “É uma matéria difícil, vamos estudar”.
Trata-se de um comportamento recorrente e malcriado, para uma empresa que está nesta região a prestar um serviço pago pelos açorianos e não um favor.
Todos sabemos como os camiões e maquinaria da empresa danificaram vias municipais, que eram mantidas a muito custo pelas autarquias, para além dos danos causados em acessos a explorações agrícolas.
Quando chamada às respectivas reparações, a Euroscut limitou-se a desculpar que essas vias “já se encontravam em avançado estado de degradação”, esquivando-se à responsabilidade da passagem dos camiões.
Mais de 2 mil pessoas foram expropriadas, com inúmeras queixas de proprietários e arrendatários, sendo que a resposta da empresa foi sempre de uma ligeireza gritante, ao ponto de entrar com máquinas em propriedades que nem eram suas.
O caso mais surreal que ficou na memória de todos ocorreu com aquele habitante da Ribeira Chã, que ficou com a casa soterrada devido à obstrução de uma linha de água com materiais provenientes das obras das Scut.
Aconteceu por 6 vezes no espaço de 9 meses, com a casa enterrada de entulho numa altura de dois metros acima do chão, sem que nenhuma autoridade se tivesse imposto.
O morador explicou atónito a resposta da Euroscut: “Queriam dar-me 500 euros”!
Só depois do caso denunciado pela imprensa e TV é que a empresa se comprometeu a resolver a situação.
Faz agora um ano que as fortes chuvadas puseram a descoberto muitos inertes das obras em áreas pouco recomendáveis, mas a política de menor custo sobrepôs-se à dignidade ambiental.
Por tudo isto – e por uma questão de responsabilidade e segurança – é imperioso que a Euroscut esclareça os açorianos o que anda a fazer e o que correu mal no viaduto de Água d’Alto.
É que no trajecto entre a Ribeira Grande e Nordeste (39 quilómetros que vão ser reduzidos para 25, numa viagem que durará 15 minutos em vez dos actuais 60) estão a ser construídos 7 nós de ligação, 13 passagens inferiores e 22 superiores, que atravessam cerca de 40 linhas de água, das quais 12 envolvem a construção de outros tantos 12 viadutos.
Estará esta dúzia de viadutos com os mesmos problemas do de Água d’Alto?
Já foram feitos testes de segurança?
Mais: em Nordeste foi construido “o maior viaduto da Península Ibérica em altura e em distância entre pilares” (385 metros de comprimento total, tabuleiro a 165 metros de altura e um vão de 185 metros entre pilares). Que garantias de segurança dá a Euroscut para esta originalidade?
Em tempos o Presidente da Euroscut garantiu que “escavações, aterros e viadutos passam pelo crivo do Ambiente”.
Então porque razão o Ambiente ainda não se pronunciou?
A manter-se este desprezo pelos cidadãos, o dono da obra não vai obrigar a concessionária a dar-nos explicações?
Ou agora é assim? Empresas estrangeiras instalam-se nas nossas ilhas e tratam-nos como colonizados?
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CRISE – Presumo que a esta hora o país já esteja sem governo.
Pois então que venha a “ajuda estrangeira” colonizar também este “país periférico” e pôr estes políticos na ordem...
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P.S. – Já depois desta crónica estar no prelo, o governo anunciou ontem que a queda dos pilares em Água d’Alto foi provocada por um deslizamento de terras.
Da Euroscut, nem uma palavra. Mantém-se impávida e serena no seu silêncio sepulcral…
Pico da Pedra, Março de 2011
Autor: Osvaldo Cabral
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